quarta-feira, 2 de abril de 2014

50 anos de um golpe que ainda nos atinge

Carlos Eduardo Calvani

Para Anivaldo Padilha, irmão de Koinonia
Luiz Caetano Grecco Teixeira, irmão de Koinonia e sacerdócio
Leonildo Silveira Campos, ex-professor e irmão de lutas e ministérios,

Ainda não completei 50 anos. Nasci dois anos após o golpe militar de 1964. Mas aquele golpe atingiu toda minha geração, além das gerações que nos precederam na oposição e que trazem ainda hoje as marcas físicas e emocionais de sua resistência ao totalitarismo.

A única memória concreta que tenho é de um episódio acontecido talvez em 1973 ou 74. Sei que foi em um destes anos por causa da escola na qual eu estudava com 7 ou 8 anos, ainda aprendendo a ler e a escrever. Um ruído diferente interrompeu a rotina das aulas vespertinas e um grupo de soldados (tinham, talvez entre 19 e 22 anos?) adentrou a sala e passou a revistar nossas mochilas. A professora ficou acuada e quieta no canto. Não sei o que procuravam. Mas lembro muito bem dos milicos fardados e empunhando orgulhosamente seus fuzis perante um grupo de crianças que mal saía das fraldas. Certamente ficamos com medo e intimidados. Hoje fico imaginando o que aconteceria se, por um deslize, descuido ou pressão psicológica, um dedo mal posicionado apertasse algum gatilho. Precisávamos daquela demonstração ou era simplesmente para amedrontar crianças que nem sabiam o que era comunismo?

Após a aula quando contei a meu avô o que acontecera, ele ficou indignado, e disse apenas: “cuidado… um dia você entenderá, quando tudo isso passar…”. Ele era funcionário administrativo de 3º. ou 4º. Escalão do DERMAT (Departamento de Estradas e Rodagens do Mato antigo estado do Mato Grosso, antes da divisão territorial). Não cursara faculdade nem fazia parte de qualquer Partido Político da época. Era um “homem comum” que vivia no círculo “casa-trabalho-igreja”, com poucas excursões adicionais a outros círculos. O único ambiente “diferente” desse círculo ao qual me levava vez ou outra era o grupo DeMolay de uma loja maçônica da qual também se afastou mais ou menos na mesma época. Quando lhe perguntei porque não íamos mais à loja, sua resposta foi simples e curta: “tudo o que você aprendeu até agora será útil em sua vida, mas não confie mais nas pessoas que estão ali; elas estão comprometidas com os militares”. Anos mais tarde é que fiquei sabendo que as lojas maçônicas no Brasil nunca mais foram as mesmas após 1964. O golpe atingiu profundamente as lojas que se dividiram após episódios traumáticos de “irmãos” traindo e entregando outros à tortura (os maçons perseguidos geralmente eram profissionais liberais da imprensa – jornalistas- educação, advocacia ou homens ligados à cultura e às artes). As lojas consideradas de maioria “esquerdista” geralmente “abateram colunas” e muitos filhos-da-viúva perseguidos desistiram de plantar acácias nos mesmos orientes de seus delatores. Anos mais tarde, lendo “Brasil nunca mais”, “Inquisição sem fogueiras”, “Protestantismo e Repressão” e outros textos, descobri que muitas lideranças religiosas também traíram qual Judas, lavaram as mãos qual Pilatos ou literalmente perseguiram e torturaram os que estavam sob seus cuidados pastorais.

Militares… volta e meia esse termo era pronunciado em casa, com certo medo ou até sussurradamente. Meu avô falava muito pouco, a ponto de alguns parentes o apelidarem familiarmente de “Zacarias”, o pai de João Batista que ficou mudo. Talvez, exatamente por isso, quando falava, eu parava para ouvir. A única vez em que o vi falar publicamente foi em um culto de uma congregação presbiteriana. O pastor, por algum motivo estava ausente e ele, como presbítero (líder leigo), ficou encarregado de dirigir o culto e pronunciar o sermão. Creio que eu tinha não mais que 9 ou 10 anos, portanto em 1975 ou 1976. O culto foi dirigido com poucas palavras e uma certa sobriedade nos gestos. Meu avô não falava… apenas gesticulava indicando o momento para ficar em pé ou para se sentar. Lembro-me porém, de um detalhe inesquecível neste culto – seu sermão foi sobre a conversão do centurião Cornélio. Não tenho condições de recordar o conteúdo enfatizado, mas por algum motivo, lembro uma frase que se tornou alvo de polêmica posterior: “até os militares podem se converter!’.

Novamente o termo “militares”…. no mesmo domingo, retornando do culto e durante algumas semanas seguintes, ouvi minha avó reclamando que ele não deveria ter dito o que dissera porque era “perigoso”. O “sermão”, porém, não causou qualquer problema à nossa família, talvez porque a congregação era pequena, com poucos freqüentadores, e ainda no seu início, reunindo-se em uma sala alugada na Rua Calarge. Mudou várias vezes de lugar e atualmente é a 1ª Igreja Presbiteriana Independente de Campo Grande, MS. Mesmo não recordando o teor do sermão, ainda me pergunto: por que ele dissera algo considerado “perigoso” por minha avó? Militares não podiam se converter? Ou não precisavam se converter?

Aos poucos o substantivo “militar” e o substantivo “perigoso” começaram a se fundir e minha tímida percepção de garoto. Meu avô tinha certas restrições a um de nossos parentes, um de meus tios que trabalhava no departamento de comunicação de uma companhia aérea já extinta, e que fazia “serviços extras” durante as madrugadas e com quem meu avô não queria muito contato. Por algum motivo ele era também “perigoso”. Algumas vezes, quando perguntava à sua esposa onde estava o “tio Celso”, ela simplesmente respondia: “está de plantão, fazendo uns “servicinhos extra, consertando cabos telefônicos”. Ele ainda está vivo, e hoje sei que era funcionário do SNI, encarregando de grampos e outras estratégias de espionagem. Vive recluso e o máximo que faz é jogar bozó e dominó com outros aposentados, e quando lhe perguntam algo sobre aquela época, simplesmente responde: “isso já passou”.

Tenho um amigo militar da reserva. Aposentado, ou como ele mesmo diz, “milico de pijama”. Por morarmos em condomínio, às vezes nos encontramos e eventualmente almoçamos juntos aos domingos. É um senhor já de certa idade, e pelo pouco que sei, no final dos anos 60 foi soldado, cabo e sargento, tornando-se oficial na 2ª metade dos anos 70, já no governo Geisel. Hoje é coronel aposentado. Gosta de Raquel Sheherazade. É “de direita”, como dizemos em nossos círculos. Respeito-o por sua idade, mas não deixo passar oportunidade para que ele saiba que sou, teoricamente, “de esquerda”. Curiosamente, ele toca violão muito e bem e sabe “de cor” a letra de “Caminhando e cantando”, “Apesar de você” e outras canções de resistência da época. Nunca me deu motivos para ter ódio, raiva ou aversão dele. Não sei qual foi sua atuação durante a ditadura nos anos 60 e 70, mas já confidenciou em algumas ocasiões que houve muitos exageros por parte do exército. A vida me ensinou que nem tudo é “preto e branco”. Há tons de cinzas e nuances demodês. Meu vizinho, pelo que conta, nascido em família pobre do interior, só tinha duas opções na vida: ser padre ou ser milico. Tornou-se milico. Se tivesse seguido o caminho religioso, talvez fosse hoje um bom colega no clero. Ou não?

Também tive paroquianos militares da reserva. Um deles, também coronel reformado, era homem extremamente sensível, daqueles que se emociona e chora durante o cântico de hinos ou em alguns momentos do sermão. Sempre solícito, prestativo e fiel à Igreja, também não gostava de falar de seus tempos de milico, e nunca reagiu negativamente aos sermões em que aproveitei para criticar o militarismo ou as forças armadas. Até mesmo participou de encenações amadoras da “Paixão de Cristo” na semana santa paroquial, mas no papel de “discípulo”, pois dizia não gostar de violência, e sempre que tocávamos em algum assunto referente ao golpe militar, ele dizia: “entendo o que o senhor fala, só espero que não esteja me dando indiretas, pois nunca concordei com certos exageros”.

Muitos militares que estavam na ativa nos anos 60 e 70 ainda estão por aí. Perigosos? Sinceramente, não sei, “o que andam suspirando pelas alcovas” (Chico Buarque). Nós, clérigos e sacerdotes, sempre tentamos nos equilibrar entre o ministério profético e a compaixão pastoral – e sempre a exercitamos diante de pessoas idosas e atormentadas por culpas e pelos fantasmas de seu passado. Também nos esforçamos para cumprir nossos votos de ordenação, que implicam em acompanhar pastoralmente todas as pessoas – ricas ou pobres, jovens ou idosas – até a hora de sua morte. Tal compromisso, porém, não pode ser tomado como desculpa para silenciar nosso próprio clamor e solidariedade a muitas pessoas de mais idade (e seus familiares) que sofreram torturas,violências diversas e que foram afrontadas em seus direitos humanos mais básicos. nosso reconhecimento e gratidão a eles, elas e a seus familiares mais próximos são impossíveis de ser traduzidos em palavras. Muitas vezes evitamos mencionar tais episódios em sua presença, pois sabemos que sua dor física e existencial é incomensurável, como também nossa gratidão por sua bravura. A resistência deles e delas, entre outras coisas, serviu para amenizar os coices do golpe militar de 50 anos atrás, que poderiam ter nos machucado com uma intensidade bem mais traumática que as dores que ainda nos ferem.

Se alguma coisa há a ser comemorada 50 anos depois de 1964, não é o golpe,  mas a resistência de muitos anivaldos, caetanos e leonildos, que ofereceram seus corpos em sacrifício para que os cassetetes, fuzis e tanques não nos assolassem. A eles e elas, minha sincera gratidão, e a certeza de que serão lembrados em ações de graças perante o altar na Semana Santa e no Domingo de Páscoa. Afinal, a tradição cristã nos lembra: “onde está, ó morte, a tua vitória?”. É tempo de agradecer e “esbanjar poesia” – não pelo golpe – mas por todas as pessoas que ofereceram resistência à morte e que, ressuscitados, continuam a nos encantar com suas histórias.

Na semana santa de 2014, 50 anos depois de 1964, quando relembramos o julgamento injusto e desumano sofrido por Jesus Cristo, e a brutalidade militar e religiosa que o martirizou, é oportunidade de lembrar e agradecer pela resistência de muitos e de clamar para que o veneno desse cálice/cale-se amargo nunca mais se ofereça ao nosso povo.

Acabo de ouvir belo depoimento de Gilberto Gil em documentário, sobre a música “Cálice” (https://www.youtube.com/watch?v=8CnSiaP-jL4). Recomendo aos interessados pela densidade emocional, política e existencial do testemunho e da canção, e silenciosamente, elevo minha oração:

“Pai, afasta de mim esse cálice!”
O cálice amargo do totalitarismo, da brutalidade e da violência
O “Cale-se!” dos silêncios impostos por gritos ou palavras-de-ordem;
Os cálices preparados em coquetéis militares
E em cerimônias religiosas
Cujos venenos já foram alquimizados nos bastidores
Senhor, tem piedade de nós.
Cristo, tem piedade de nós…
Tem misericórdia, Senhor, dos que ainda sofrem a dor do golpe
Certamente, é dor imensurável
Afinal, “médice” a dor ???????
Como beber dessa bebida amarga?
como beber o cálice da censura política, cultural e religiosa?
O cálice do escravizante poder econômico?
O cálice da invisibilidade imposta a a gays e lébicas?
O cálice sem-nada dos pobres?
O cálice envenenado das políticas indigenistas?
O cálice evangélico que demoniza as religiões afro-brasileiras?
O cálice solitário da velhice desamparada?
O cálice sangrento da violência doméstica?
O cálice imperdoável dos abusos sexuais às crianças?
Afasta, Pai….
“De muito gorda a porca já não anda…”
Não permita, Pai, que nossas instituições engordem…
torne-as leves e dançarinas…
não permita que a gordura paralisante
atrofie as instituições políticas
e acomode as instituições religiosas
sobretudo, essas, que deveriam ser ágeis e translúcidas
Não permita, Pai, que a gordura da soberba e da prosperidade
enriqueçam e ensoberbeçam as igrejas
torn-as mais pobres, cada vez mais pobres
para que sejam leves
Preserva nossa memória para sempre reafirmar
o que não queremos e não merecemos:
Esses cálices amargos
E o “cale-se” que nós mesmos interiorizamos
Kyrie… afasta de nós esse cálice!

Fonte: PALAVRA ABERTA

domingo, 23 de março de 2014

Hora do Planeta 2014: 'use seu poder' em 29/03/2014

A campanha Hora do Planeta, promovida pela ONG WWF desde 2007, convida o mundo a apagar todas as luzes de casa por 60 minutos. Assim, todos estão convidados a aderir a esse gesto simples e simbólico no dia 29/03, entre 20h30 e 21h30.
Este ano, a campanha ganhou seu primeiro embaixador global: o Homem-Aranha. Por isso, os atores Andrew Garfield, Emma Stone e Jamie Foxx - protagonistas do novo filme do personagem, O Espetacular Homem-Aranha 2, que deve ser lançado em maio próximo por aqui - também aderiram à iniciativa.
A campanha começou em Sidney, na Austrália, em 2007. E não parou de crescer: mais de um bilhão de pessoas aderiram em cinco mil cidades de 152 países diferentes. As pirâmides do Egito, a Torre Eiffel, a Acrópole de Atenas, o Cristo Redentor (RJ) e a Ópera de Manaus estão entre os monumentos mais famosos que apoiam a iniciativa e se mantêm no escuro durante 60 minutos na data marcada.
Clique AQUI para ler mais

quarta-feira, 19 de março de 2014

Anglicanos, Católicos Romanos e Muçulmanos unidos contra o tráfico humano

Cidade do Vaticano, 17 mar 2014 (Ecclesia) – O Vaticano acolheu hoje a apresentação de um projeto inter-religioso de luta contra o tráfico e a exploração de seres humanos, que vai estar em vigor até 2020.
De acordo com a sala de imprensa da Santa Sé, a iniciativa, intitulada “Rede Global de Liberdade”, reúne os esforços de católicos, anglicanos e muçulmanos para procurar “erradicar as formas modernas de escravatura” que atingem homens, mulheres e crianças de todo o mundo.
Um comunicado assinado pelo chanceler da Academia Pontifícia das Ciências, D. Marcelo Sánchez Sorondo, em nome do Papa Francisco, denuncia que atualmente cerca de “30 milhões de pessoas estão condenadas à desumanização e degradação, vítimas de exploração física, económica e sexual”.
“Cada dia em que esta trágica situação se arrasta constitui um grave assalto à humanidade e representa também uma afronta vergonhosa à consciência de todas as pessoas”, pode ler-se no documento, que conta com o apoio do arcebispo da Cantuária, responsável máximo da Igreja Anglicana, e do grande imã de Al-Azhar, no Cairo.
Idealizada com a colaboração da Fundação “Walk Free”, criada por Andrew Forrest, a Rede Global de Liberdade pretende combater a “indiferença” perante este problema e incentivar “comunidades religiosas, governos e pessoas em geral à ação”.
“Só ativando, em todo o mundo, os ideais da fé e os valores sociais” é que será possível eliminar um “mal” que tem dedo “humano” mas que pode também ser combatido através do “esforço humano”, realçam os signatários.
“Apesar de todas as diligências já efetuadas, a nível internacional, a escravatura moderna e o tráfico humano continuam em expansão”, acrescentam os promotores do projeto, que lamentam que muitas das situações, e as suas vítimas, continuem “escondidas” dos olhares do público.
“Lugares de prostituição, fábricas e quintas, embarcações de pesca, estabelecimentos ilegais, residências privadas” são apenas alguns dos exemplos de locais onde a exploração e o tráfico humano têm lugar.
Mas existem “inúmeros outros lugares, em cidades, aldeias e favelas, em países ricos ou nas nações mais pobres”, recorda o documento assinado pela Santa Sé.
Durante este ano, a “Rede Global de Liberdade” vai ser reforçada através de um esforço conjunto, ao nível das comunidades religiosas, dos seus líderes, junto do meio empresarial, especialmente das multinacionais, e do mundo da política, no sentido de combater o tráfico e a escravatura humana.
A ideia é também começar a criar condições, ao nível dos países, para a criação de um “Fundo Global contra a Escravatura”, sobretudo com o contributo das 20 nações mais ricas do mundo.
Destaque ainda, até ao final de 2014, para a realização de ações de sensibilização junto dos jovens e a mobilização de famílias, escolas, universidades, congregações e institutos para a educação e informação das comunidades.
JCP
Extraído de: PALAVRA ABERTA
PORTAL DA COMUNIDADE EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL

segunda-feira, 17 de março de 2014

Carta da 37ª Romaria da Terra e do 9º Acampamento da Juventude

1. A 37ª Romaria da Terra e o 9º Acampamento da Juventude é fruto de meses de trabalho nas comunidades e movimentos, incentivados pelo nosso irmão e pastor, Dom Jaime, arcebispo de Porto Alegre, arquidiocese que os acolheu, que conclamou a todos e todas para, “inspirados no Evangelho e orientados pelas opções de Jesus pelos menos favorecidos, os pobres e excluídos, participar de forma ativa nesta manifestação de solidariedade para com tantos de nossos irmãos e irmãs que não têm um pedaço de terra para viver dignamente. A Terra nos oferece o necessário para o sustento; mas precisamos também aprender a dela cuidar para que todos possam gozar daquilo que hoje se denomina vida saudável”. 
2. E nos dias do carnaval de 2014 (2 e 3 de março), 500 jovens do Rio Grande do Sul, da Pastoral de Juventude, da juventude do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, do Levante Popular da Juventude, do Movimento de Trabalhadores Desempregados, da juventude do Movimento dos Atingidos pelas Barragens, da Pastoral da Juventude Rural, da Pastoral Popular Luterana e do movimento “Juntos”, compromissados com os valores e as causas da Reforma Agrária, da Cooperação e da Agroecologia como modo de organizar a vida e a defesa da Mãe-Terra, estiveram reunidos no 9º Acampamento da Juventude, no Assentamento da Lagoa dos Juncos, em Tapes.
3. Acolhidos com entusiasmo pelos moradores do Assentamento e pelas equipes que já vieram antes para preparar o espaço para o Acampamento e a Romaria, logo se integraram e, com muita energia e entusiasmo, com palavras de ordem, canções diversas e muito debate, foram reafirmando a disposição de serem sujeitos protagonistas de uma nova sociedade, justa, fraterna, socialista.
4. Refletimos sobre a realidade, ouvimos os clamores que brotam das mais diversas situações de exploração e opressão, geradas pelo sistema capitalista e procuramos compreender os desafios que nos são colocados para aprofundar o processo de transformação para que haja vida digna e abundante para todos e todas, assumindo os seguintes compromissos:
- Denunciar o sistema capitalista como intrinsecamente perverso em seu DNA, pois sua lógica de acumulação a qualquer preço, movido pela ganância, gera as divisões sociais, exploração, opressões diversas, sofrimento e morte.
- Retomar e aprofundar a defesa da Reforma Agrária, condição inclusive para avançar na agroecologia e na agricultura de base camponesa.
- Denunciar o agronegócio como um sistema que tem como lógica o lucro e se sustenta na exploração do trabalho e dos recursos naturais, em contradição com a agricultura camponesa.
- Defender os diversos sistemas da biodiversidade e fortalecer a luta contra os agrotóxicos, pois estes matam.
- Impulsionar a produção e o consumo saudáveis, defendendo e praticando a agroecologia, sem ter medo das mudanças.
- Resgatar a política como a ação em favor do bem comum, essencial nos processos de mudança da realidade, e como a mais alta forma de amor ao próximo.
- Investir no fortalecimento do trabalho de base e na construção da mais ampla unidade entre os explorados e excluídos.
- Lutar pela igualdade de gênero.
- Respeitar e considerar justa toda forma de AMOR.
- Defender políticas públicas substantivas para a população trabalhadora, em especial para a juventude e lutar contra a privatização dos serviços públicos.
- Impulsionar um processo de trabalho de base permanente de formação sobre as políticas públicas e o papel protagonista dos jovens e da população em geral na sua efetivação.
- Educar e mobilizar a juventude e a população trabalhadora para a participação das mesmas nos espaços de construção das políticas públicas e do controle social do Estado.
- Comprometer-se com o Plebiscito popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana pela Reforma do Sistema Político.
- Impulsionar a participação das mulheres nos espaços de poder e decisão de nossa sociedade.
- Construir espaços de formação permanente sobre a questão de gênero, envolvendo homens e mulheres, na perspectiva de superação de todas as formas de patriarcalismo e machismo em todos os espaços da vida.
- Investir em formas de comunicação para garantir um direito fundamental em qualquer processo de construção da liberdade, o da informação, o que nos convoca ao engajamento na luta pela democratização dos meios de comunicação.
- Denunciar a FIFA e os processos da Copa como mecanismos de fortalecimento da lógica dos grandes negócios, de violação direitos de muitas pessoas, em detrimento de investimentos em áreas essenciais para a população, como habitação, saúde e educação. (A Copa não é do Brasil e sim da FIFA”).
5. No dia 4, esse/as jovens juntaram-se aos milhares de Romeiros e Romeiras que vieram de todos os rincões do Rio Grande e mesmo de vários outros estados para celebrar a história de lutas dos povos da Terra por justiça, igualdade e liberdade, com quem compartilharam e celebraram esses compromissos.
6. Animados e encorajados por tantas testemunhas que doaram suas vidas por estas causas em defesa dos pobres, no seguimento de Jesus de Nazaré, renovamos o desejo de que os bons frutos desta Romaria da Terra possam repercutir bem na vida de todas as nossas Comunidades de fé e de luta. 
Tapes, 4 de março de 2014

sábado, 1 de março de 2014

37ª Romaria da Terra em Tapes

37ª ROMARIA DA TERRA
ASSENTAMENTO LAGOA DO JUNCO
TAPES/RS - 04 DE MARÇO DE 2014
Neste Carnaval de 2014, no dia 4 de março, acontece no Assentamento Lagoa do Junco, Tapes/RS, a 37ª edição da Romaria da Terra do Rio Grande do Sul, sempre promovida pela Comissão Pastoral da Terra (CPT-RS) e Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB Sul 3), com a participação solidária de outras igrejas cristãs. 
Neste ano a Romaria é acolhida pelas famílias de Tapes, de modo especial, do Assentamento Lagoa do Junco e a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo, com o Vicariato de Guaíba e a Arquidiocese de Porto Alegre.
Nesta 37ª edição, a Romaria da Terra tem como tema: "Reforma Agrária, Cooperação e Agroecologia" e o lema: "Cultivar Vida Saudável".
No blog da CPT-RS tem uma página específica sobre a Romaria com diversos textos de subsídio para estudar o tema que está direcionado para a importância da Reforma Agrária como uma forma de justiça social, de promoção da agroecologia e a cooperação na produção de alimentos saudáveis.
Leia no blog da CPT, os textos sobre o tema e diversos depoimentos sobre a Romaria da Terra: http://cptdors.blogspot.com.br/

Relato da Presença da IEAB no Congresso do MST

Enviado em 18 de fevereiro, por Paulo UETI, Facilitador Regional para América Latina y el Caribe, Alianza Anglicana.

Justiça e paz se abraçarão! Cantamos com o salmista a alegria e o júbilo da verdadeira religião (Am, Is, Tg). 

Semana passada aconteceu o VI Congresso Nacional do MST (movimento dos trabalhadores e trabalhadoras sem terra) em Brasília. Mais de 15 pessoas estiveram presentes celebrando, lutando e expressando que outro mundo não é só possível mas já está acontecendo. Ainda a muito caminho, a jornada não acabou e é difícil, mas em solidariedade e fé o movimento segue e nós, pessoas de fé e religião, acompanhamos do mesmo jeito que Jesus acompanhou as pessoas mais vulneráveis e foi testemunha que Deus não as esqueceu e continua com elas. 
Rev. Gabas e Yvi da Diocese de Curitiba estiveram presentes durante o evento, assim como  Bispo Maurício e eu mesmo. Nosso primaz se fez presente através de uma saudação (postada neste blog). 
Compartilho o boletim do Congresso (Clique AQUI para abrir o link). Vale a pena inteirar-se para seguirmos em movimento de solidariedade e muita oração para que "Venha Teu Reino Senhor"... 
Um abraço terno e fraterno.

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Testemunho de Yvi Leisi - Londrina-PR:
Participei do VI Congresso Nacional do MST para presenciar e entender um pouco mais sobre as lutas dos trabalhadores sem terra e aprofundar a discussão sobre a reforma agrária e socialismo.
O Congresso levantou discussões muito positivas, colocando em pauta aspectos fundamentais como a batalha que temos de traçar contra o imperialismo estadunidense e as multinacionais. Além disso, colocou a luta por reforma agrária novamente na pauta do governo.
Penso que o momento mais marcante foram as místicas realizadas, que mostraram toda a batalha enfrentada pelo Movimento e sintetizaram esses 30 anos de luta e conquistas.
A igreja deve estar envolvida com os trabalhos do movimento para ajudar a fortalecer as reivindicações. A igreja deve ter não apenas num envolvimento político, mas uma presença atuante em acampamentos e assentamentos, assim como se realiza em Cascavel, na pessoa do Reverendo Luiz Carlos Gabas.
Percebi durante o Congresso de que pelo menos 60% dos integrantes da plenária eram jovens que lá estavam lutando por seus direitos. Um recado que eu deixo à juventude é sempre ler, entender, e se engajar mais na luta, que pertence a todos.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Carta do Primaz ao Encontro do MST

Santa Maria, 10 de Fevereiro de 2014

E o efeito da justiça será paz, e a operação da justiça, repouso e segurança para sempre. Isaías 32,17

A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) congratula e se solidariza com a celebração do VI Congresso Nacional do Movimento das Trabalhadoras e Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil. O MST há trinta anos organiza sonhos e desejos de vida plena, defende os direitos ao acesso democrático e humano a terra, ao trabalho, a alimentos livre de venenos e luta contra o preconceito de grupos que por centenas de anos permanecem em situação de privilégio e dominação em nossas terras.
São três décadas de sonhos, mobilizações, lutas e conquistas para um Brasil melhor e para uma sociedade onde a justiça e a paz se beijam (cf. S. 85). Reconhecemos suas ações e colaborações na firme defesa de pessoas excluídas dos meios de produção deste país rico e extenso, mas dominados por uma elite que concentra, domina e é a aliada da violência para manter seus privilégios e a todo custo defender seus lucros.
A terra e a humanidade são expressão da Palavra de Deus, por sua “ordem todas as coisas vieram a existir: a vastidão do espaço entre as estrelas, as galáxias, sóis, os planetas em suas órbitas, e esta terra frágil que é nosso lar. Dos primeiros elementos fez surgir a raça humana e a abençoaste com  memória, razão e sabedoria…”  (cf. Livro Comum de Oração p.81).
Essa é a religião que a família anglicana celebra e defende. Uma religião que reconhece e defende a vida, especialmente os mais empobrecidos e excluídos, e o planeta, usurpado pelo lucro e pelo egoísmo de poucos, como expressão de um Deus que ama e se entrega para que a vossa alegria seja completa (cf. Jo 16:24c).
Como igreja de Deus neste país a Família Episcopal Anglicana se junta ao MST, um dos maiores aliados da sociedade brasileira, neste tempo de graça e martírio e conclama a todas as pessoas de boa fé na missão, também cumprida por este movimento, de “responder as necessidades humanas com amor, buscar a transformação das estruturas injustas da sociedade e a lutas pela salvaguarda da integridade da criação, sustento e renovação terra” (cf. Cinco Marcas da Missão-CCA e CL 1988).
Nosso compromisso como igreja deve ser claro e irredutível no reconhecimento, apoio e envolvimento com movimentos que  lutam pela justiça e direitos do planeta e das pessoas que nele habitam, que fazem campanhas para que nossos alimentos sejam sem venenos e nossa agricultura seja principalmente para  alimentar a população que passa fome. A terra e a vida pertencem ao Senhor. Não se pode ficar parados enquanto a maioria da população sofre e é explorada ou escravizada por uma minoria ainda poderosa neste país.
Convido a todas as pessoas das comunidades da família anglicana a fazer um momento de oração pela realização deste congresso em Brasília na semana de 10 a 14 de Fevereiro. 15.000 sem terras e parceiros de outros grupos e organizações estarão celebrando 30 anos de vida e de luta pela cidadania e dignidade. Tanto já foi conquistado mas ainda falta muito e nossa fé deve ser expressão do amor de Deus. Nossa religião é aquela que se coloca ao lado dos “mais pequeninos violentados e excluídos” (cf. Mt 25:31-46), tem misericórdia e publicamente a expressa, mesmo que isso leve a Cruz.
Nossa Igreja se fará representar neste Congresso pela presença de meu irmão e bispo Mauricio Andrade, bispo diocesano de Brasilia e companheiro de caminhada nas lutas pela justiça e dignidade.
Ubi Caritas et Amor. Deus ibi est. Onde está a solidariedade e o amor Deus aí está.

++ Francisco de Assis da Silva
Primaz do Brasil e Diocesano em Santa Maria

NOTA: A DAC está representada por alguns irmãos e irmãs do Assentamento “Olga Benário” em Sta. Tereza do Oeste/PR onde a Paróquia da Ascensão mantêm um Ponto Missionário e também pelo Ven. Arc. Luiz Carlos Gabas. 
Imagem: MST